A história se repete no Estreito de Ormuz, onde a tensão entre EUA e Irã evoca memórias da perigosa Guerra dos Petroleiros, com lições cruciais para o conflito atual.
Enquanto o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, cogita ordenar que navios da Marinha escoltem petroleiros pelo Estreito de Ormuz, analistas navais e historiadores sentem um forte déjà vu.
Quase 40 anos atrás, navios de guerra americanos enfrentavam um inimigo similar: a marinha e as forças marítimas da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) do Irã.
A chamada Guerra dos Petroleiros, no final dos anos 1980, apresentou armas e desafios que uma força de escolta dos EUA encontraria hoje, oferecendo lições sobre como a guerra pode rapidamente sair do controle, com consequências fatais.
Conforme informação divulgada pela CNN Brasil, as sementes para a Guerra dos Petroleiros foram plantadas em 1980, quando o Iraque, liderado por Saddam Hussein, temendo o governo teocrático do Irã, lançou uma invasão contra seu vizinho.
Após anos de impasse, Saddam decidiu atacar petroleiros iranianos, visando prejudicar a economia do Irã e forçar a intervenção de potências mundiais para proteger o fluxo de petróleo.
O Iraque utilizou jatos para atingir a infraestrutura petrolífera iraniana, e o Irã respondeu atacando navios mercantes neutros que transportavam suprimentos para o Iraque, muitos via Kuwait.
“O Iraque então começou a atacar petroleiros que iam e vinham da Ilha de Kharg, e a ‘Guerra dos Petroleiros’ teve início”, escreveu o historiador Samuel Cox.
O envolvimento dos EUA e o ataque ao USS Stark
Com os ataques a navios escalando, o Kuwait buscou ajuda estrangeira em 1986. A União Soviética agiu primeiro, mas os EUA, para não perder influência, planejaram escoltar navios kuwaitianos sob a bandeira americana.
No verão de 1987, a Marinha dos EUA enviou um grande contingente para o Golfo. Antes mesmo do início das escoltas, os americanos já estavam em perigo.
Em 17 de maio de 1987, a fragata USS Stark foi atingida por dois mísseis Exocet disparados por um avião de guerra iraquiano, que supostamente a confundiu com um alvo iraniano.
“Os dois mísseis mataram 29 tripulantes do Stark instantaneamente e outros oito morreriam devido aos ferimentos e queimaduras, com outros 21 feridos”, relatou Cox. O navio, apesar dos danos severos, conseguiu chegar ao porto por meios próprios.
O incidente, embora o Iraque tenha se desculpado, demonstrou como erros na guerra podem ter consequências catastróficas. Na guerra atual, três caças F-15 americanos foram abatidos por fogo amigo em um incidente similar, mas sem fatalidades.
Operação Earnest Will e o constrangimento do Bridgeton
A Operação Earnest Will, a escolta efetiva dos petroleiros, começou em julho de 1987. Contudo, o Irã havia minado um canal crucial, e em 24 de julho, o petroleiro Bridgeton atingiu uma mina iraniana.
“O resultado, no entanto, foi uma das fotos mais ignominiosas nos anais da história naval dos EUA, que mostrava o Bridgeton chegando ao Kuwait com suas antigas escoltas americanas seguindo em sua esteira, aparentemente usando o grande petroleiro como um ‘caça-minas’ para sua própria proteção”, descreveu Cox.
Este evento foi um enorme constrangimento para a Marinha dos EUA, que suspendeu as operações de escolta e buscou ajuda de aliados para operações de varredura de minas, enfrentando dificuldades com a escassez de recursos.
A correlação de forças, minas versus caça-minas, continuou a superar as capacidades dos EUA, mesmo com a ajuda aliada. A preocupação com minas persiste hoje, com poucos navios caça-minas americanos na região.
O perigo das minas e a Operação Praying Mantis
Em 14 de abril de 1988, a fragata USS Samuel B Roberts atingiu um campo minado iraniano, sofrendo danos extensos. A explosão abriu um buraco de 15 pés em seu casco, mas a tripulação conseguiu salvar o navio.
Este ataque precipitou a Operação Praying Mantis, uma retaliação americana que incluiu ataques a plataformas de petróleo iranianas e batalhas navais. Uma dessas batalhas foi a primeira superfície-superfície com mísseis na história da Marinha dos EUA.
O historiador naval Craig Symonds classificou a Praying Mantis como uma das cinco batalhas navais americanas mais importantes de todos os tempos, demonstrando o poderio militar dos EUA.
No entanto, analistas apontam que a tecnologia avançou e o arsenal do Irã aumentou, com drones baratos expandindo a matriz de ameaças. A dependência de aliados para a limpeza de minas e a falta de planejamento antecipado para escoltas são questionadas.
“A história se repete”, afirmou o consultor marítimo Frank Coles. “Qualquer um que se lembre da guerra Irã-Iraque sabe que escoltas eram necessárias na época. É decepcionante que isso não tenha feito parte do processo de planejamento agora.”
A história tem uma maneira persistente de rimar, especialmente quando o cenário é o Estreito de Ormuz, a artéria mais vital do mercado energético global. Para o seu site de notícias, aqui está uma análise profunda que conecta o passado da “Guerra dos Petroleiros” (1980-1988) com as tensões atuais.
Análise detalha:
A Guerra dos Petroleiros: O Precedente Histórico
Durante a guerra Irã-Iraque na década de 1980, o conflito transbordou das trincheiras terrestres para as águas do Golfo Pérsico. O objetivo era asfixiar a economia do adversário destruindo suas exportações de petróleo.
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O Estopim: O Iraque atacou terminais iranianos; o Irã respondeu minerando o estreito e atacando navios de países que apoiavam Bagdá.
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A Intervenção: O conflito levou à Operação Earnest Will, onde os EUA escoltaram petroleiros kuwaitianos, resultando em confrontos diretos entre a marinha americana e iraniana.
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O Legado: Ficou provado que, em um conflito de exaustão, o Estreito de Ormuz é a arma de dissuasão definitiva.
Por que o Cenário Atual é Familiar (e mais Perigoso)
Embora o contexto geopolítico tenha mudado, os pilares da crise permanecem os mesmos: soberania marítima, sanções econômicas e a vulnerabilidade do suprimento global.
1. A Geopolítica dos Chokepoints
O Estreito de Ormuz tem apenas 33 km de largura no seu ponto mais estreito. Por ali passa cerca de 20% do consumo mundial de petróleo e uma parcela massiva do GNL (Gás Natural Liquefeito). Diferente dos anos 80, hoje o mundo é muito mais dependente do fluxo “just-in-time”, o que significa que qualquer interrupção causa pânico imediato nos preços.
Mapa do Estreito de Ormuz detalhando as rotas de navegação, a largura do chokepoint e os principais oleodutos alternativos que ignoram o estreito.

– Arte: Gabriel Carvalho/A folha Hoje
2. Novas Táticas: Drones e Guerra Híbrida
Se nos anos 80 o perigo eram minas rudimentares e lanchas rápidas, hoje o Irã e seus aliados possuem:
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Drones suicidas (Loitering Munitions): Baratos e difíceis de interceptar.
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Mísseis de cruzeiro antinavio: Com alcance que cobre todo o Golfo.
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Guerra Cibernética: Capacidade de desativar sistemas de navegação GPS de navios comerciais.
Impactos Econômicos: O “Preço do Medo”
Se a história se repetir com um fechamento ou assédio sistemático no Estreito, as consequências seriam sistêmicas:
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Explosão do Brent: Analistas estimam que o barril poderia ultrapassar rapidamente os US$ 120-150, dependendo da duração do bloqueio.
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Crise de Fretes e Seguros: Assim como na Guerra dos Petroleiros original, o custo do seguro para navegar na região (prêmio de risco de guerra) tornaria o transporte proibitivo para muitas empresas.
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Inflação Global: O aumento do combustível geraria um efeito cascata em cadeias de suprimentos já fragilizadas.
Conclusão: Dissuasão ou Escalação?
A grande diferença entre 1986 e 2026 é a multipolaridade. Naquela época, era uma disputa de Guerra Fria. Hoje, um bloqueio em Ormuz afetaria diretamente a China (maior importadora de petróleo da região), o que coloca Pequim como um mediador improvável, mas necessário, que não existia há 40 anos.
O Estreito de Ormuz continua sendo o “gatilho” que ninguém quer puxar, mas que todos mantêm o dedo próximo. A história nos ensina que, nesse tabuleiro, um erro de cálculo de um único capitão de navio pode desencadear uma crise energética global.

